Pesquisa nacional revela avanço da violência política contra educadores de todos os níveis de ensino nas redes pública e privada e aponta impacto direto na liberdade de ensinar
Nove em cada dez professores da educação básica e superior, das redes pública e privada, já sofreram perseguição direta ou presenciaram episódios de censura contra colegas em todo o país.
O dado integra o estudo A violência contra educadoras/es como ameaça à educação democrática, do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (Onve), ligado à Universidade Federal Fluminense, em parceria com o Ministério da Educação.
O relatório, que reuniu respostas de 3.012 profissionais, é o primeiro de uma série dedicada a investigar o avanço das violências dirigidas ao trabalho docente no Brasil. A apresentação ocorreu na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, estado que tem registrado casos recorrentes de intimidação a trabalhadores da educação.
O levantamento mostra que, em todas as regiões do país, 90% dos educadores já foram vítimas diretas, testemunharam ou souberam de episódios de censura a conteúdos, materiais ou práticas pedagógicas. Segundo o Onve, trata-se de uma forma de violência cometida “em razão do ofício”, com impacto direto sobre a liberdade de ensinar.

Fonte: ONVE
Os dados apontam picos de perseguição nos anos 2018 e 2022, períodos de eleições presidenciais, o que sugere relação entre o acirramento político e o aumento das pressões sobre o trabalho docente.
Temas classificados como “polêmicos” lideram as tentativas de silenciamento: questões políticas (73%), gênero e sexualidade (53%), religião (48%), negacionismo científico (41%) e relações étnico-raciais (30%).
Segundo o coordenador do estudo, o professor Fernando Penna, o fenômeno atinge todas as etapas e redes e envolve tanto agentes externos quanto membros das próprias comunidades escolares.
“A violência já está dentro das instituições. Direção, coordenação, familiares e até colegas são citados como autores das pressões”, afirmou.

Fonte: Onve
Entre os que sofreram censura direta, 58% relataram intimidações, 41% disseram ter sido alvo de questionamentos agressivos sobre métodos pedagógicos e 35% foram proibidos explicitamente de abordar determinados conteúdos.
O estudo também registra demissões (6%), suspensões (2%), transferências forçadas (12%), remoções de função (11%), agressões verbais (25%) e físicas (10%).
Os casos envolvem temas obrigatórios no currículo. Durante a pandemia, um professor do interior do Rio de Janeiro foi impedido de distribuir material do Ministério da Saúde sobre vacinação sob a acusação de “doutrinação”. Outro exemplo recorrente é a proibição de abordar violência sexual, apesar da importância da escola na identificação de abusos.

Forte: Onve

Fonte: Onve
A pesquisa identifica um ambiente de autocensura generalizada: 60% dos que sofreram perseguição passaram a pensar duas vezes antes de falar em sala de aula; 59% se sentem inseguros ou vigiados; 53% consideraram mudar de local de trabalho; e 2% abandonaram a docência.
A sensação de vigilância é citada por 45% dos entrevistados, especialmente nas regiões Sul e Sudeste.
“Os professores sabem que determinados temas podem significar advertência ou demissão”, disse Penna. O medo, segundo ele, compromete a formação dos estudantes e limita o acesso ao conhecimento científico.

O estudo também indica uma correlação entre os ataques e a disputa política nacional. Desde 2010, os casos crescem continuamente, com saltos nos anos do impeachment e em eleições presidenciais.
Fonte: Onve
Para o Onve, a perseguição docente foi instrumentalizada por campanhas de pânico moral impulsionadas pela extrema direita.
Profissionais da área pedagógica (57%), familiares (44%) e estudantes (34%) aparecem entre os principais autores das agressões. A participação de servidores administrativos, diretores e gestores municipais ou estaduais confirma que a violência está institucionalizada em parte das redes.

“A violência já está dentro das instituições. Direção, coordenação, familiares e até colegas são citados como autores das pressões”, afirmou o coordenador da pesquisa, professor Fernando Penna, da UFF
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
O Observatório defende a criação de uma política nacional de enfrentamento à violência contra educadores, atualmente em discussão no MEC, e a inclusão dos profissionais da educação entre os defensores de direitos humanos.
O estudo foi lançado originalmente em novembro, durante audiência na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, com presença de movimentos sociais, sindicais e parlamentares defensores do direito à educação que vêm atuando no enfrentamento aos altos índices de violências contra professores naquele estado.
Esse estudo é o primeiro volume de uma série de pesquisas do Observatório, Ameaças à educação democrática, que investigará as novas configurações da violência contra professores no país.
A análise revela a dimensão dessa conjuntura enfrentada pelos educadores no Brasil, mostrando que pelo menos 90% dos docentes de cada uma das regiões do país já sofreram, presenciaram ou souberam de casos de censura a colegas do seu entorno, indicando que este é um fenômeno disseminado em todo o país.
A pesquisa, até agora, gerou um banco de dados que ainda tem muitos cruzamentos para serem feitos, manifestou o coordenador.
“A gente pode fazer análises de estados separadamente. A segunda etapa da pesquisa, que está em curso, é de entrevistas. Do total dos professores que responderam a primeira fase da pesquisa, serão selecionados 20 no país para as entrevistas”, observou Penna, anunciando que serão divulgados outros relatórios vinculados a essa pesquisa inicial.
Acesse o documento completo em PDF no link Um estudo quantitativo da perseguição a educadoras/es no Brasil
Fonte: Extra Classe